Em 1996, uma jornalista comprou uma obra minha. Bem intencionada e bem relacionada, um dia ela me ligou dizendo que um famoso crítico de arte gostaria de bater um papo comigo sobre meu trabalho.
Data e horário agendados, o tal crítico chegou no meu estúdio. Farejou tintas, olhou algumas telas, empinou o nariz e soltou um ‘muito comercial!’.

Agradeci num misto de satisfação e uma ponta de ironia. A satisfação era porque sempre achei que meu trabalho é, de fato, comercial e tenho até um certo orgulho disso (comercializo meus trabalhos pois não vivo de fotossíntese, como fazem as plantas…). Já a ironia foi em razão do tom de voz dele, uma mescla de desprezo e ar professoral.
Em seguida ele tascou um ‘é preciso fazer alguns redirecionamentos na sua arte’.

Não me contive e perguntei que redirecionamentos seriam esses. Seco, ele respondeu: - Mil dólares!
-Como? Não entendi…
Ele foi mais claro:
- Mil dólares! O valor que cobro para te dar algumas orientações sobre esses direcionamentos.
Ah, agora entendi… Mas, eu não quero fazer ‘redirecionamentos’. Tô feliz assim!
- Bem, se mudar de idéia, entre em contato. Facilito o pagamento (!!!).

E lá fiquei eu durante alguns minutos pensando se o ‘comercial’ naquela história era eu mesmo…

Breve comentário(1): dizem que o tal crítico cobra (caro) para escrever textos de aberturas de exposições e prefácios de livros de arte (sempre elogiosos, claro…).
Breve comentário(2): em 1997 fiz uma grande exposição patrocinada pela Secretaria de Cultura de São Paulo. O crítico assinou o livro de visitas com a frase: ‘Obra a ser amadurecida. Cuidado com o oportunismo’.

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Mural ‘Snake’, pintado numa parede do estúdio em setembro de 2007. Mede aproximadamente 8 m2