Além de desenhar você também trabalha?
Publicado por Morandini em 15 Fev 2008 | sob: Blog do Morandini
Apesar de ter trabalhado no comércio a vida toda, meu pai desenhou vários logotipos e embalagens para empresas em que trabalhou, inclusive uma divertida garrafa para uma fábrica de bebidas de Paraty, que tinha encaixe para os dedos da pessoa que empunhava o vasilhame. Tudo isso numa época em que a palavra design praticamente inexistia.
O desenho abaixo é uma antiga caricatura do ator Procópio Ferreira que ele fez quando tinha 14 anos. Guardo ela numa caixa, com vários outros desenhos e esboços. Além de ‘designer’ ele era pintor, desenhista e violinista, tendo feito parte da Orquestra da USP. Escrevi o pequeno texto que segue abaixo da ilustração para a Folha de S. Paulo em 2004.

Texto publicado na Revista da Folha em dezembro de 2004
Toda a noite era assim: o pai chegava em casa, jantava e, munido de lápis e papel, rabiscava deliciosas garatujas. Ali, na mesa da cozinha, enquanto ele desenhava, tirando um pouco das frustrações do emprego obrigatório e rotineiro na loja de tintas, eu era o espectador solitário. Talvez aqueles fossem os poucos momentos em que ele podia ser inteiro.
Platéia silenciosa, eu ficava admirando sua mão e sonhando um dia fazer igual.
Lá pela adolescência, alguém me disse que arte não dava muito futuro. O bom era a carreira militar. Encarei o conselho com um misto de frustração e indiferença.
Cresci. Um dia o pai parou de desenhar para sempre.
Segui rabiscando e sonhando. Apaguei aquele conselho dado por alguém e resolvi seguir o bom exemplo do pai. Sem perceber, enquanto desenhava ele rabiscava meu futuro. Aquelas noites têm sido minha grande inspiração.
Hoje também desenho garatujas. No lugar do emprego obrigatório e rotineiro, fiz delas minhas companheiras e meu divertido ganha-pão. Meu filho, o espectador solitário da vez, fica observando. Tomara que nunca ninguém diga para ele que aquilo com que ele sonha não dá muito futuro. Torço para que siga seu caminho e seja feliz naquilo que quiser, como eu tenho feito.
Outro dia me perguntaram se além de desenhar eu também trabalhava. Dei um sorriso e fiquei sem saber o que dizer.
Continuo procurando a resposta até hoje.
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Emocionante…simplesmente emocionante.
Ler seu texto foi como voltar ao passado e ver um pouco da minha própria história.
Obrigado.
Morandini, já era sua fã pela sua arte e agora fiquei apaixonada pelas suas palavras. Quana sensibilidade! Estou encantada.
Um beijo da fã Milena
Olha, se trabalho também for sinônimo de rotina entediante e desgastante, então realmente não trabalhamos! ainda bem né?!